Este blog compartilha com você política e literatura, duas dimensões essenciais da existência humana.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Umberto Eco e o manual do mau jornalismo
"Número Zero", novo romance do escritor italiano, é ambientado em 1992 e mostra a história de um jornal criado para difamar. Texto publicado originalmente pela revista Carta Capital.

Umberto Eco fala sobre o jornalismo em seu novo livro
Por Kelly Velazquez
O famoso escritor e ensaísta italiano Umberto Eco apresentou nesta semana na Itália seu novo romance, Número zero, uma espécie de manual do mau jornalismo ambientado na redação de um jornal imaginário.
O novo livro do influente intelectual italiano, autor do famoso romance O nome da rosa e de importantes tratados de semiótica, é uma história de ficção ambientada em 1992, um ano particular para a Itália contemporânea, marcado pelos escândalos de corrupção e pela investigação "Mani Pulite" (Mãos limpas), que arrasou com boa parte da classe política da época.
O livro se concentra, sobretudo, nos mistérios não resolvidos que sacudiram nestes anos a Itália, entre eles o protagonizado pela loja maçônica Propaganda 2 do temido Licio Gelli, que queria dar um "golpe branco". "É o primeiro romance de Eco que fala de uma época tão recente", reconhece Elisabetta Sgarbi, diretora da editora Bompiani.
Eco descreve a redação imaginária de um jornal, criado naquele ano, para desinformar, difamar adversários, chantagear, manipular, elaborar dossiês e documentação secreta. "Para mim é um manual da comunicação de nossos dias", sustenta Roberto Saviano, renomado jornalista antimáfia da Itália, que vive sob escolta pelas ameaças de morte que recebe das organizações criminosas.
Em uma conversa entre Eco e Saviano, publicada pela revista L'Espresso, o semiólogo afirma que não quis escrever um "tratado de jornalismo", mas contar uma história sobre os limites da informação, sobre como funciona uma máquina de denegrir, e não tanto sobre o trabalho de informar. "Escolhi o pior caso. Quis dar uma imagem grotesca do mundo, ainda que o mecanismo da máquina para sujar, de lançar insinuações, já fosse usado durante a Inquisição", comentou Eco.
Saviano, que considera que as redes sociais multiplicaram esta forma de denegrir gerando verdadeiros monstros, acredita que o magnata das comunicações e ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi marcou o início dessa era, entre boatos e informações, vida e vícios tanto privados quanto públicos. "Escolhi 1992 porque considero que este ano marca o momento de um declínio na história da sociedade italiana", disse Eco em uma entrevista ao Corriere della Sera.
No livro, o semiólogo se diverte citando frases famosas ou lugares comuns do jornalismo, como "no olho do furacão", "um duro revés" ou "com a água no pescoço". "Não é necessário estrangular a avó para perder a credibilidade. É suficiente contar que o juiz usa meias na cor laranja. Por que será?", contou Eco citando um caso verdadeiro durante uma longa entrevista à RAI.
Graças aos delírios de um redator paranoico, Eco conta fatos concretos, mas reconstruídos a partir de teorias bizarras ou que se entrelaçam estranhamente com outras e que terminam por criar uma nova notícia.
É o caso da loja maçônica P2, do suposto assassinato do papa Luciani (João Paulo I), dos cúmplices das brigadas vermelhas que trabalhavam para os serviços secretos, dos tentáculos da CIA, dos atentados e até de um falso cadáver de Benito Mussolini com o qual conseguiram salvá-lo e enviá-lo à Argentina. Todas são histórias que o leitor não conseguirá determinar se são fatos inventados ou a descrição da realidade, segundo o escritor.
Trata-se do sétimo romance de Eco, que publicou, entre outros, O Cemitério de Praga e O Pêndulo de Foucault.
O novo livro do influente intelectual italiano, autor do famoso romance O nome da rosa e de importantes tratados de semiótica, é uma história de ficção ambientada em 1992, um ano particular para a Itália contemporânea, marcado pelos escândalos de corrupção e pela investigação "Mani Pulite" (Mãos limpas), que arrasou com boa parte da classe política da época.
O livro se concentra, sobretudo, nos mistérios não resolvidos que sacudiram nestes anos a Itália, entre eles o protagonizado pela loja maçônica Propaganda 2 do temido Licio Gelli, que queria dar um "golpe branco". "É o primeiro romance de Eco que fala de uma época tão recente", reconhece Elisabetta Sgarbi, diretora da editora Bompiani.
Eco descreve a redação imaginária de um jornal, criado naquele ano, para desinformar, difamar adversários, chantagear, manipular, elaborar dossiês e documentação secreta. "Para mim é um manual da comunicação de nossos dias", sustenta Roberto Saviano, renomado jornalista antimáfia da Itália, que vive sob escolta pelas ameaças de morte que recebe das organizações criminosas.
Em uma conversa entre Eco e Saviano, publicada pela revista L'Espresso, o semiólogo afirma que não quis escrever um "tratado de jornalismo", mas contar uma história sobre os limites da informação, sobre como funciona uma máquina de denegrir, e não tanto sobre o trabalho de informar. "Escolhi o pior caso. Quis dar uma imagem grotesca do mundo, ainda que o mecanismo da máquina para sujar, de lançar insinuações, já fosse usado durante a Inquisição", comentou Eco.
Saviano, que considera que as redes sociais multiplicaram esta forma de denegrir gerando verdadeiros monstros, acredita que o magnata das comunicações e ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi marcou o início dessa era, entre boatos e informações, vida e vícios tanto privados quanto públicos. "Escolhi 1992 porque considero que este ano marca o momento de um declínio na história da sociedade italiana", disse Eco em uma entrevista ao Corriere della Sera.
No livro, o semiólogo se diverte citando frases famosas ou lugares comuns do jornalismo, como "no olho do furacão", "um duro revés" ou "com a água no pescoço". "Não é necessário estrangular a avó para perder a credibilidade. É suficiente contar que o juiz usa meias na cor laranja. Por que será?", contou Eco citando um caso verdadeiro durante uma longa entrevista à RAI.
Graças aos delírios de um redator paranoico, Eco conta fatos concretos, mas reconstruídos a partir de teorias bizarras ou que se entrelaçam estranhamente com outras e que terminam por criar uma nova notícia.
É o caso da loja maçônica P2, do suposto assassinato do papa Luciani (João Paulo I), dos cúmplices das brigadas vermelhas que trabalhavam para os serviços secretos, dos tentáculos da CIA, dos atentados e até de um falso cadáver de Benito Mussolini com o qual conseguiram salvá-lo e enviá-lo à Argentina. Todas são histórias que o leitor não conseguirá determinar se são fatos inventados ou a descrição da realidade, segundo o escritor.
Trata-se do sétimo romance de Eco, que publicou, entre outros, O Cemitério de Praga e O Pêndulo de Foucault.
sábado, 17 de janeiro de 2015
Por que a extrema esquerda fracassou e acabou isolada
Esse fracasso da extrema esquerda hoje é generalizado nos países de governos progressistas, como Venezuela, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador e Brasil.
Quando foram sendo eleitos governos na onda do fracasso e rejeição aos governos neoliberais, predominantes nos anos 1990 na América Latina, ao mesmo tempo foram se reconstituindo as forças de extrema esquerda, na crítica desses governos.
Nenhum deles foi poupado, mas inicialmente o governo Lula foi objeto mais concentrado dessas críticas. Motivos não pareciam faltar. Desde a “Carta aos brasileiros”, Lula parecia encaminhar-se para o abandono das teses históricas da esquerda, repetindo a experiência histórica que os trotskistas sempre anunciaram: a social democracia se comporta como força de esquerda, quando está na oposição, mas basta chegar ao governo, para romper com as teses históricas da esquerda, “traindo” a esquerda e os trabalhadores, para se revelar como uma manobra de engano do povo e de continuidade, sob outra forma dos governos da direita.
Uma equipe econômica conservadora, uma reforma regressiva da previdência, discurso tímido – tudo parecia confirmar a tese da “traição”. Cabia, perfeitamente, uma critica pela esquerda, sobre a questão central do período: a superação do modelo neoliberal, que era feita pela esquerda do PT.
Discutia-se se o governo seguia estando sob disputa entre tendências conservadoras e de esquerda, até que um grupo considerou que era um governo “perdido”, saiu do PT e a fundou um novo partido. O grupo foi rapidamente hegemonizado por trotskistas (da tendência morenista, de origem na Argentina), que enquadravam a evolução do PT no governo no modelo clássico da “traição”.
Porém, ao invés de elaborar uma crítica de esquerda e formular alternativas, rapidamente esse grupo pegou carona nas denúncias do “mensalão”, que a mídia lançou contra o PT. Fazendo com que a “traição” tivesse uma conotação de “corrupção”, como sintoma de uma degradação moral do governo.
A líder do grupo, Heloisa Helena, com seu destempero verbal, tratava o governo como “gangue” e com outros epítetos afins, tão ao gosto da classe média. Esse grupo, que supostamente saia pela esquerda para fundar o PSOL, rapidamente somava-se, de maneira subordinada à ofensiva da direita contra o governo.
A campanha eleitoral de 2006 foi a consagração dessa aliança tácita: todos contra o governo Lula, inimigo fundamental de uns e dos outros. Nela, o PSOL consolidou sua opção pela critica moralista, da “traição” do Lula. Quem trai, se torna cada vez pior, reprime, reproduz exatamente o governo da direita. Dai as armadilhas em que caiu o PSOL.
Se concentrou em tentar demonstrar, primeiro, que não teria havido “herança maldita”, desconhecendo totalmente a profunda e prolongada recessão produzida pelo governo FHC e a situação herdada do Estado, do mercado interno, da exclusão social, da precarização das relações de trabalho, entre outras. Pior ainda do que isso, passou a desconhecer – da mesma forma que a direita – as diferenças do governo Lula com o governo FHC, em particular a prioridade das políticas sociais.
Além de que desconhece que a polarização neoliberalismo/antineoliberalismo é o enfrentamento central do período histórico atual e, por isso, desconhece que o governo Lula faz parte do movimento histórico da região de construção de governos posneoliberais. Desconhece o papel dos novos governos latinoameicanos, como único polo mundial de resistência ao neoliberalismo.
A aliança oportunista com a direita contra o governo Lula se deve à consciência de que só teriam espaço, se o PT fracassasse. Então se somam a essa frente, que toma o governo Lula como seu inimigo fundamental.
A essa aliança se soma a atitude ultra esquerdista de, no segundo turno, entre Lula e Alckmin, ficar equidistante, como se fosse o mesmo que ganhasse um ou outro. Imaginem o Alckmin presidente do Brasil diante da crise de 2008! Bastaria isso para nos darmos conta da posição absurda no segundo turno, mas coerente com a opção feita pelo PSOL.
Depois do brilhareco momentâneo das eleições de 2006, em que o desempenho da Heloisa Helena, presidente do partido, chegou a ser vergonhoso, promovida pela Globo para permitir a chegada ao segundo turno, o perfil do partido claramente baixou. Se deram conta que seu projeto de construir uma alternativa nacional tinha fracassado. A candidatura de Marina, que herdou boa parte dos votos de Heloisa Helena, confirmou isso. As posições posteriores da ex-candidata complementaram a imagem de uma pessoa individualista, reacionária em relação a temas como o aborto e a democratização dos meios de comunicação, descontrolada, sem condições de liderar um partido de esquerda.
Enquanto isso, ao invés de ser derrotado, o governo Lula, pelos efeitos das politicas sociais, foi ampliando seu apoio popular, de forma constante, até o fim do governo Lula, permitindo a eleição da Dilma.
O desempenho do candidato do PSOL nas eleições seguintes, Plinio de Arruda Sampaio, que contou com muitos espaços na mídia, na mesma busca de votos para chegar ao segundo turno contra o PT, confirmou o fracasso politico do partido, quando teve 1% dos votos, menos até que outros grupos pequenos, com muito menos espaços na mídia. Desde então o partido tem uma postura de marcar posição, sem nunca ter formulado projeto estratégico alternativo para o Brasil, ficando reduzido a uma força do campo de denuncias do “mensalão”.
Enquanto que uma força de esquerda radical deveria, antes de tudo, ter uma analise especifica da sociedade brasileira, do grau de penetração do neoliberalismo, para propor um projeto de superação desse modelo, que articule antineoliberalismo com anticapitalismo. Deveria analisar o governo do PT reconhecendo os avanços realizados e apoiá-los, ao mesmo tempo que criticar suas debilidades. Se propor a ser aliado do governo à sua esquerda, nos aspectos comuns e crítico nos outros.
Teria que apoiar a política externa do governo, suas políticas sociais, seu resgate do papel ativo do Estado nos planos econômico e social. Que apoiar o conjunto de governos progressistas na região, que protagonizar os processos de integração regional.
Caracterizar o governo como força progressista, força moderada no campo da esquerda, enquanto esse partido seria uma força mais radical do mesmo. Para isso precisaria ter clareza dos inimigos fundamentais, que compõem o campo da direita – EUA, PSDB e seus aliados, a mídia oligárquica, o sistema bancário. Para impedir qualquer risco de se confundir com a direita contra o governo.
Essa via foi inviabilizada pela opção que o PSOL assumiu e reafirmou ao longo do governo do PT, isolando-se, sem apoio popular, valendo-se dos espaços que a mídia direitista lhe concede, quando entende que podem prejudicar o governo.
Virou um partido denuncista, de causas corretas e outras duvidosas. Nem sequer valoriza o imenso processo de democratização social que tem transformado positivamente o Brasil na ultima década.
Esse fracasso da extrema esquerda hoje na é generalizado nos países de governos progressistas – Venezuela, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador -, com desempenhos mais ou menos similares, mas a mesma incapacidade de compreender a natureza do periodo histórico neoliberal e o papel progressista que tem esses governos. A extrema esquerda terminou tomando como seus inimigos fundamentais a esses governos, aliando-se, tácita ou explicitamente à direita contra eles, abandonando a possibilidade de compor um quadro da esquerda, onde seriam a alternativa mais radical. Ficam isoladas, em posturas denuncistas, sem propostas alternativas. Enquanto que os governos progressistas, a esquerda na era neoliberal, se constituem, em escala mundial, na referencia central na luta antineoliberal.
por Emir Sader em seu blogue.
Quando foram sendo eleitos governos na onda do fracasso e rejeição aos governos neoliberais, predominantes nos anos 1990 na América Latina, ao mesmo tempo foram se reconstituindo as forças de extrema esquerda, na crítica desses governos.
Nenhum deles foi poupado, mas inicialmente o governo Lula foi objeto mais concentrado dessas críticas. Motivos não pareciam faltar. Desde a “Carta aos brasileiros”, Lula parecia encaminhar-se para o abandono das teses históricas da esquerda, repetindo a experiência histórica que os trotskistas sempre anunciaram: a social democracia se comporta como força de esquerda, quando está na oposição, mas basta chegar ao governo, para romper com as teses históricas da esquerda, “traindo” a esquerda e os trabalhadores, para se revelar como uma manobra de engano do povo e de continuidade, sob outra forma dos governos da direita.
Uma equipe econômica conservadora, uma reforma regressiva da previdência, discurso tímido – tudo parecia confirmar a tese da “traição”. Cabia, perfeitamente, uma critica pela esquerda, sobre a questão central do período: a superação do modelo neoliberal, que era feita pela esquerda do PT.
Discutia-se se o governo seguia estando sob disputa entre tendências conservadoras e de esquerda, até que um grupo considerou que era um governo “perdido”, saiu do PT e a fundou um novo partido. O grupo foi rapidamente hegemonizado por trotskistas (da tendência morenista, de origem na Argentina), que enquadravam a evolução do PT no governo no modelo clássico da “traição”.
Porém, ao invés de elaborar uma crítica de esquerda e formular alternativas, rapidamente esse grupo pegou carona nas denúncias do “mensalão”, que a mídia lançou contra o PT. Fazendo com que a “traição” tivesse uma conotação de “corrupção”, como sintoma de uma degradação moral do governo.
A líder do grupo, Heloisa Helena, com seu destempero verbal, tratava o governo como “gangue” e com outros epítetos afins, tão ao gosto da classe média. Esse grupo, que supostamente saia pela esquerda para fundar o PSOL, rapidamente somava-se, de maneira subordinada à ofensiva da direita contra o governo.
A campanha eleitoral de 2006 foi a consagração dessa aliança tácita: todos contra o governo Lula, inimigo fundamental de uns e dos outros. Nela, o PSOL consolidou sua opção pela critica moralista, da “traição” do Lula. Quem trai, se torna cada vez pior, reprime, reproduz exatamente o governo da direita. Dai as armadilhas em que caiu o PSOL.
Se concentrou em tentar demonstrar, primeiro, que não teria havido “herança maldita”, desconhecendo totalmente a profunda e prolongada recessão produzida pelo governo FHC e a situação herdada do Estado, do mercado interno, da exclusão social, da precarização das relações de trabalho, entre outras. Pior ainda do que isso, passou a desconhecer – da mesma forma que a direita – as diferenças do governo Lula com o governo FHC, em particular a prioridade das políticas sociais.
Além de que desconhece que a polarização neoliberalismo/antineoliberalismo é o enfrentamento central do período histórico atual e, por isso, desconhece que o governo Lula faz parte do movimento histórico da região de construção de governos posneoliberais. Desconhece o papel dos novos governos latinoameicanos, como único polo mundial de resistência ao neoliberalismo.
A aliança oportunista com a direita contra o governo Lula se deve à consciência de que só teriam espaço, se o PT fracassasse. Então se somam a essa frente, que toma o governo Lula como seu inimigo fundamental.
A essa aliança se soma a atitude ultra esquerdista de, no segundo turno, entre Lula e Alckmin, ficar equidistante, como se fosse o mesmo que ganhasse um ou outro. Imaginem o Alckmin presidente do Brasil diante da crise de 2008! Bastaria isso para nos darmos conta da posição absurda no segundo turno, mas coerente com a opção feita pelo PSOL.
Depois do brilhareco momentâneo das eleições de 2006, em que o desempenho da Heloisa Helena, presidente do partido, chegou a ser vergonhoso, promovida pela Globo para permitir a chegada ao segundo turno, o perfil do partido claramente baixou. Se deram conta que seu projeto de construir uma alternativa nacional tinha fracassado. A candidatura de Marina, que herdou boa parte dos votos de Heloisa Helena, confirmou isso. As posições posteriores da ex-candidata complementaram a imagem de uma pessoa individualista, reacionária em relação a temas como o aborto e a democratização dos meios de comunicação, descontrolada, sem condições de liderar um partido de esquerda.
Enquanto isso, ao invés de ser derrotado, o governo Lula, pelos efeitos das politicas sociais, foi ampliando seu apoio popular, de forma constante, até o fim do governo Lula, permitindo a eleição da Dilma.
O desempenho do candidato do PSOL nas eleições seguintes, Plinio de Arruda Sampaio, que contou com muitos espaços na mídia, na mesma busca de votos para chegar ao segundo turno contra o PT, confirmou o fracasso politico do partido, quando teve 1% dos votos, menos até que outros grupos pequenos, com muito menos espaços na mídia. Desde então o partido tem uma postura de marcar posição, sem nunca ter formulado projeto estratégico alternativo para o Brasil, ficando reduzido a uma força do campo de denuncias do “mensalão”.
Enquanto que uma força de esquerda radical deveria, antes de tudo, ter uma analise especifica da sociedade brasileira, do grau de penetração do neoliberalismo, para propor um projeto de superação desse modelo, que articule antineoliberalismo com anticapitalismo. Deveria analisar o governo do PT reconhecendo os avanços realizados e apoiá-los, ao mesmo tempo que criticar suas debilidades. Se propor a ser aliado do governo à sua esquerda, nos aspectos comuns e crítico nos outros.
Teria que apoiar a política externa do governo, suas políticas sociais, seu resgate do papel ativo do Estado nos planos econômico e social. Que apoiar o conjunto de governos progressistas na região, que protagonizar os processos de integração regional.
Caracterizar o governo como força progressista, força moderada no campo da esquerda, enquanto esse partido seria uma força mais radical do mesmo. Para isso precisaria ter clareza dos inimigos fundamentais, que compõem o campo da direita – EUA, PSDB e seus aliados, a mídia oligárquica, o sistema bancário. Para impedir qualquer risco de se confundir com a direita contra o governo.
Essa via foi inviabilizada pela opção que o PSOL assumiu e reafirmou ao longo do governo do PT, isolando-se, sem apoio popular, valendo-se dos espaços que a mídia direitista lhe concede, quando entende que podem prejudicar o governo.
Virou um partido denuncista, de causas corretas e outras duvidosas. Nem sequer valoriza o imenso processo de democratização social que tem transformado positivamente o Brasil na ultima década.
Esse fracasso da extrema esquerda hoje na é generalizado nos países de governos progressistas – Venezuela, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador -, com desempenhos mais ou menos similares, mas a mesma incapacidade de compreender a natureza do periodo histórico neoliberal e o papel progressista que tem esses governos. A extrema esquerda terminou tomando como seus inimigos fundamentais a esses governos, aliando-se, tácita ou explicitamente à direita contra eles, abandonando a possibilidade de compor um quadro da esquerda, onde seriam a alternativa mais radical. Ficam isoladas, em posturas denuncistas, sem propostas alternativas. Enquanto que os governos progressistas, a esquerda na era neoliberal, se constituem, em escala mundial, na referencia central na luta antineoliberal.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
A França e a falsificação histórica
Por
Paulo Moreira Leite, em seu blog, reproduzido pelo blogue do Miro.
Antes de completar uma semana, a justa indignação diante do assassinato dos profissionais da revista Charlie Hebdo pode transformar-se num espetáculo inesquecível de falsificação histórica.
Submetidos a um longo passado de segregação, preconceito e violência, os 6 milhões de franceses que seguem a religião muçulmana agora são apresentados como a principal ameaça à segurança e ao progresso de seu país. Saudadas como reivindicações legítimas por várias décadas, suas aspirações a uma vida menos desigual, sem exclusão, passaram a ser vistas como inconvenientes e perigosas.
O fantasma do “radicalismo muçulmano” ganhou um reforço ontem, quando se anunciou que cinco mil soldados foram deslocados para garantir a segurança de escolas judaicas do país. Falando de Paris, um radialista afirma que a polícia estima que 1400 jihadistas armados se encontrem na França.
Como acontece em qualquer outro país, os franceses só teriam a ganhar se utilizassem episódios obscuros de sua própria história para refletir sobre os perigos da vida presente. A perseguição ao capitão do Exército Alfred Dreyfus, que em 1895 chegou a ser aprisionado a ferros ao sol da Guiana sob a falsa acusação de traição a patria, ajuda a lembrar os riscos de permitir que o preconceito oriente decisões da política e da Justiça. Dreyfus foi reabilitado em 1906 mas em 1940, quando as tropas de Hitler entraram em Paris, a mesma multidão que pressionou pela condenação do capitão judeu deu sustentação ao governo colaboracionista do Marechal Petain.
De maior utilidade nos dias que correm, o mais prolongado conflito entre franceses e muçulmanos - naquele tempo eles eram chamados de “árabes” - foi a Guerra da Argélia. Prolongou-se por oito anos, entre 1954 e 1962 e deixou lições dolorosas para um país que, em outras épocas, teve pleno direito de dar lições de democracia e liberdade ao conjunto de homens e mulheres do planeta, independente de classe, raça ou nacionalidade. Suas lições são preciosas e surpreendentes.
Invadido e conquistado em 1830, por mais de um século o território argelino foi destinado a colonos franceses que se mudavam para o norte da África em busca de uma vida melhor. Em 100 anos de atividade colonial naquele lugar as áreas cultiváveis em poder dos franceses e seus descedentes passaram de 11.500 hectares para 2,7 milhões, concentração que, entre outras coisas, estimulou as primerias levas de imigração nativa em direção ao outro lado do Mediterrâneo. Nas imensas áreas recém-conquistadas, agricultores de origem francesa plantavam na colonia e vendiam, na metrópole, “os frutos da terra roubada,” como definiu Jean-Paul Sartre, uma das grandes consciências da França do século XX, autor de reflexões de grande utilidade sobre o tema — como você verá em outros parágrafos desta nota. Como se pode imaginar, a cobiça cresceu um pouco mais depois que se descobriram as imensas reservas de petróleo.
Em 1945, num primeiro levante contra os ocupantes franceses, uma massa calculada em até 70 000 pessoas foi massacrada em Létif. “Exterminando a esse subproletariado, (os franceses) se arruinaram a si mesmos,” disse Sartre, sem deixar de observar que a tragédia ocorreu “no momento em que ia nascer o Tribunal de Nueremberg,” aquele que julgou os comandantes de Adolf Hitler.
Nove anos depois, quando os revolucionários da Frente de Libertação Nacional anunciaram que “a longa noite de colonialismo terminou”, o então ministro do Interior, François Mitterrand - socialista como François Holland - pronunciou uma frase inesquecível: “A Argélia é a França. Quem entre vós hesitaria em empregar todos os meios para salvar a França?”
Nenhum meio foi recusado mas nada se salvou. Incapaz de aceitar a noção de que seria impossível de vencer os argelinos em sua própria terra natal, e que era mais prudente negociar um acordo de paz, o exército francês decidiu abandonar os métodos de guerra convencional e adotar a tortura como método preferencial de interrogatórios, com objetivo de dizimar as organizaões revolucionárias, exatamente como mostra a obra prima A Batalha de Argel.
Os militares franceses não inventaram a tortura, conhecida há muito tempo. Mas ajudaram a generalizar o procedimento. Desenvolveram técnicas, aperfeiçoaram métodos, inovaram - inclusive através do assassinato e desaparecimento de prisioneiros, que nunca poderiam ser localizados nem identificados. Tampouco teriam seus restos mortais devolvidos aos familiares, exatamente como seria feito, duas décadas mais tarde, na Argentina, no Chile e no Brasil.
Num depoimento à jornalista Marie-Dominique Robin, autora de “Esquadrões da morte: a escola francesa”, o general Paul Aussarenesses fala em 3.000 desaparecidos - um número brutal, equivalente a um milionésimo da população total da Argélia, hoje. Apesar da tortura, logo ficou claro que a luta dos argelinos iria prosseguir - com mais força, mais dura.
Convencidos de que o governo civil, em Paris, tornara-se fraco demais para assegurar a vitória, os generais do comando militar na Argélia não hesitaram mais uma vez. Ferindo o frágil regime democrático, deram um golpe de Estado, levando o general Charles De Gaulle de volta ao governo.
Num mundo onde a luta anti-colonial estava em vário pontos do mapa da Áfica, Asia, na América Latina, a nova especialidade tornou-se muito procurada. Em pouco tempo a Escola Superior de Guerra, em Paris, passou a oferecer cursos para oficiais estrangeiros, revela Ceferino Reato, autor do livro “Disposición Final,” dedicado a esclarecer a máquina de morte da ditadura Rafael Videla, na Argentina. Sob supervisão de oficiais formados nos interrogatórios de Argel, logo apareceram alunos de outros países, “portugueses e israelenses, ” escreve Reato. Em 1960 - a guerra nem havia terminado - o esforço para exportar esse tenebroso conhecimento se ampliou.
Oficiais franceses estabeleceram uma missão permanente em Buenos Aires, no décimo segundo andar do Edifício Libertador, sede do Exércio, ao lado da Casa Rosada, palácio presidencial argentino, o que permite concluir que o aprendizado argelino ajudou a construir a mais violenta das ditaduras do ciclo militar sul-americano.
Em outubro de 1961, quando estava claro que a derrota do império colonial francês caminhava para a derrota definitiva, a polícia decidiu dispersar por todos os meios um protesto de 30 000 argelinos, em Paris. Ocorreu uma matança. No dia seguinte, dezenas de cadáveres foram vistos boiando pelo Senna. No início de 1962, quatro meses antes do acordo de paz, os chefes militares providenciaram outra inovação: a anistia para seus crimes, ideia que em 1979 seria importada pelos militares brasileiros. Aprovaram uma medida que envolveu “todos os fatos cometidos no marco das operações de manutenção da ordem dirigidas contra a insurreição argelina.” Graças a essa decisão, antigos oficiais-torturadores seguiram carreira acadêmica, enquanto outros se converteram à vida parlamentar. Jamais foram processados - como ocorreu com seus colegas brasileiros.
O coronel Marcel Bigeard, que na Batalha de Argel ensina seus homens a maltratar prisioneiros, terminou a carreira como um dos oficiais mais condecorados da história da França e chegou a ministro da Defesa. A doutrina para a guerra contrarevolucionária, eufemismo para o ensinamento de técnicas cruéis de interrogatório, passou a ser ensinada e exportada de maneira oficial, com base em acordos bilaterais de assessoramento. Quando a paz foi feita entre Paris e Argel, o ambiente era de guerra e loucura entre franceses. Através de uma organização secreta, oficiais se organizaram para tentar assassinar De Gaulle.
Descrevendo um império que desabava, Sartre deixou um retrato daquele processo histórico, em que as duas partes só conseguem se prejudicar: “quando o colonialismo está prestes a se arruinar, a metrópole e a colonia são vitimas de seu enfraquecimento. Na tentativa de manter a colonização, a metrópole perde tudo o que foi lucrado com o sistema. E a colonia se enfraquece demasiadamente por causa da violência dos colonizadores.”
Sartre se referia à França e à Argelia, mas também poderia estar falando da colonia francesa do Haiti. Dois séculos antes, em 1789, quando os revolucionários de Paris anunciaram os Direitos do Homem, os escravos da América Central se levantaram para exigir o fim do cativeiro. Foram massacrados.
Também seria possível referir-se a derrota da Indochina, futuro Vietnã - de onde veio Jean-Marie Le Pen e o discurso do ressentimento contra estrangeiros.
Filho de uma professora que tinha uma admiração especial pela cultura francesa e uma imensa vontade de conhecer Paris, oportunidade que a vida não lhe ofereceu, cresci ouvindo Edith Piaf. Assisti aos filmes de Jean-Luc Godard na idade certa e acompanhei, de longe, o fogo do maio de 1968. Conheci dezenas de exilados brasileiros que encontraram refugio na Franças, durante a ditadura militar. Vivi dois anos em Paris como correspondente e, graças ao ambiente cultural da cidade, na época, encontrei a oportunidade de reconstruir a formação que trazia do Brasil.
Três décadas depois, é razoável perguntar qual opção o governo de François Holland irá tomar franceses diante de um atentado que merece repúdio universal – mas não pode ressuscitar assombrações de seu próprio passado.
Antes de completar uma semana, a justa indignação diante do assassinato dos profissionais da revista Charlie Hebdo pode transformar-se num espetáculo inesquecível de falsificação histórica.
Submetidos a um longo passado de segregação, preconceito e violência, os 6 milhões de franceses que seguem a religião muçulmana agora são apresentados como a principal ameaça à segurança e ao progresso de seu país. Saudadas como reivindicações legítimas por várias décadas, suas aspirações a uma vida menos desigual, sem exclusão, passaram a ser vistas como inconvenientes e perigosas.
O fantasma do “radicalismo muçulmano” ganhou um reforço ontem, quando se anunciou que cinco mil soldados foram deslocados para garantir a segurança de escolas judaicas do país. Falando de Paris, um radialista afirma que a polícia estima que 1400 jihadistas armados se encontrem na França.
Como acontece em qualquer outro país, os franceses só teriam a ganhar se utilizassem episódios obscuros de sua própria história para refletir sobre os perigos da vida presente. A perseguição ao capitão do Exército Alfred Dreyfus, que em 1895 chegou a ser aprisionado a ferros ao sol da Guiana sob a falsa acusação de traição a patria, ajuda a lembrar os riscos de permitir que o preconceito oriente decisões da política e da Justiça. Dreyfus foi reabilitado em 1906 mas em 1940, quando as tropas de Hitler entraram em Paris, a mesma multidão que pressionou pela condenação do capitão judeu deu sustentação ao governo colaboracionista do Marechal Petain.
De maior utilidade nos dias que correm, o mais prolongado conflito entre franceses e muçulmanos - naquele tempo eles eram chamados de “árabes” - foi a Guerra da Argélia. Prolongou-se por oito anos, entre 1954 e 1962 e deixou lições dolorosas para um país que, em outras épocas, teve pleno direito de dar lições de democracia e liberdade ao conjunto de homens e mulheres do planeta, independente de classe, raça ou nacionalidade. Suas lições são preciosas e surpreendentes.
Invadido e conquistado em 1830, por mais de um século o território argelino foi destinado a colonos franceses que se mudavam para o norte da África em busca de uma vida melhor. Em 100 anos de atividade colonial naquele lugar as áreas cultiváveis em poder dos franceses e seus descedentes passaram de 11.500 hectares para 2,7 milhões, concentração que, entre outras coisas, estimulou as primerias levas de imigração nativa em direção ao outro lado do Mediterrâneo. Nas imensas áreas recém-conquistadas, agricultores de origem francesa plantavam na colonia e vendiam, na metrópole, “os frutos da terra roubada,” como definiu Jean-Paul Sartre, uma das grandes consciências da França do século XX, autor de reflexões de grande utilidade sobre o tema — como você verá em outros parágrafos desta nota. Como se pode imaginar, a cobiça cresceu um pouco mais depois que se descobriram as imensas reservas de petróleo.
Em 1945, num primeiro levante contra os ocupantes franceses, uma massa calculada em até 70 000 pessoas foi massacrada em Létif. “Exterminando a esse subproletariado, (os franceses) se arruinaram a si mesmos,” disse Sartre, sem deixar de observar que a tragédia ocorreu “no momento em que ia nascer o Tribunal de Nueremberg,” aquele que julgou os comandantes de Adolf Hitler.
Nove anos depois, quando os revolucionários da Frente de Libertação Nacional anunciaram que “a longa noite de colonialismo terminou”, o então ministro do Interior, François Mitterrand - socialista como François Holland - pronunciou uma frase inesquecível: “A Argélia é a França. Quem entre vós hesitaria em empregar todos os meios para salvar a França?”
Nenhum meio foi recusado mas nada se salvou. Incapaz de aceitar a noção de que seria impossível de vencer os argelinos em sua própria terra natal, e que era mais prudente negociar um acordo de paz, o exército francês decidiu abandonar os métodos de guerra convencional e adotar a tortura como método preferencial de interrogatórios, com objetivo de dizimar as organizaões revolucionárias, exatamente como mostra a obra prima A Batalha de Argel.
Os militares franceses não inventaram a tortura, conhecida há muito tempo. Mas ajudaram a generalizar o procedimento. Desenvolveram técnicas, aperfeiçoaram métodos, inovaram - inclusive através do assassinato e desaparecimento de prisioneiros, que nunca poderiam ser localizados nem identificados. Tampouco teriam seus restos mortais devolvidos aos familiares, exatamente como seria feito, duas décadas mais tarde, na Argentina, no Chile e no Brasil.
Num depoimento à jornalista Marie-Dominique Robin, autora de “Esquadrões da morte: a escola francesa”, o general Paul Aussarenesses fala em 3.000 desaparecidos - um número brutal, equivalente a um milionésimo da população total da Argélia, hoje. Apesar da tortura, logo ficou claro que a luta dos argelinos iria prosseguir - com mais força, mais dura.
Convencidos de que o governo civil, em Paris, tornara-se fraco demais para assegurar a vitória, os generais do comando militar na Argélia não hesitaram mais uma vez. Ferindo o frágil regime democrático, deram um golpe de Estado, levando o general Charles De Gaulle de volta ao governo.
Num mundo onde a luta anti-colonial estava em vário pontos do mapa da Áfica, Asia, na América Latina, a nova especialidade tornou-se muito procurada. Em pouco tempo a Escola Superior de Guerra, em Paris, passou a oferecer cursos para oficiais estrangeiros, revela Ceferino Reato, autor do livro “Disposición Final,” dedicado a esclarecer a máquina de morte da ditadura Rafael Videla, na Argentina. Sob supervisão de oficiais formados nos interrogatórios de Argel, logo apareceram alunos de outros países, “portugueses e israelenses, ” escreve Reato. Em 1960 - a guerra nem havia terminado - o esforço para exportar esse tenebroso conhecimento se ampliou.
Oficiais franceses estabeleceram uma missão permanente em Buenos Aires, no décimo segundo andar do Edifício Libertador, sede do Exércio, ao lado da Casa Rosada, palácio presidencial argentino, o que permite concluir que o aprendizado argelino ajudou a construir a mais violenta das ditaduras do ciclo militar sul-americano.
Em outubro de 1961, quando estava claro que a derrota do império colonial francês caminhava para a derrota definitiva, a polícia decidiu dispersar por todos os meios um protesto de 30 000 argelinos, em Paris. Ocorreu uma matança. No dia seguinte, dezenas de cadáveres foram vistos boiando pelo Senna. No início de 1962, quatro meses antes do acordo de paz, os chefes militares providenciaram outra inovação: a anistia para seus crimes, ideia que em 1979 seria importada pelos militares brasileiros. Aprovaram uma medida que envolveu “todos os fatos cometidos no marco das operações de manutenção da ordem dirigidas contra a insurreição argelina.” Graças a essa decisão, antigos oficiais-torturadores seguiram carreira acadêmica, enquanto outros se converteram à vida parlamentar. Jamais foram processados - como ocorreu com seus colegas brasileiros.
O coronel Marcel Bigeard, que na Batalha de Argel ensina seus homens a maltratar prisioneiros, terminou a carreira como um dos oficiais mais condecorados da história da França e chegou a ministro da Defesa. A doutrina para a guerra contrarevolucionária, eufemismo para o ensinamento de técnicas cruéis de interrogatório, passou a ser ensinada e exportada de maneira oficial, com base em acordos bilaterais de assessoramento. Quando a paz foi feita entre Paris e Argel, o ambiente era de guerra e loucura entre franceses. Através de uma organização secreta, oficiais se organizaram para tentar assassinar De Gaulle.
Descrevendo um império que desabava, Sartre deixou um retrato daquele processo histórico, em que as duas partes só conseguem se prejudicar: “quando o colonialismo está prestes a se arruinar, a metrópole e a colonia são vitimas de seu enfraquecimento. Na tentativa de manter a colonização, a metrópole perde tudo o que foi lucrado com o sistema. E a colonia se enfraquece demasiadamente por causa da violência dos colonizadores.”
Sartre se referia à França e à Argelia, mas também poderia estar falando da colonia francesa do Haiti. Dois séculos antes, em 1789, quando os revolucionários de Paris anunciaram os Direitos do Homem, os escravos da América Central se levantaram para exigir o fim do cativeiro. Foram massacrados.
Também seria possível referir-se a derrota da Indochina, futuro Vietnã - de onde veio Jean-Marie Le Pen e o discurso do ressentimento contra estrangeiros.
Filho de uma professora que tinha uma admiração especial pela cultura francesa e uma imensa vontade de conhecer Paris, oportunidade que a vida não lhe ofereceu, cresci ouvindo Edith Piaf. Assisti aos filmes de Jean-Luc Godard na idade certa e acompanhei, de longe, o fogo do maio de 1968. Conheci dezenas de exilados brasileiros que encontraram refugio na Franças, durante a ditadura militar. Vivi dois anos em Paris como correspondente e, graças ao ambiente cultural da cidade, na época, encontrei a oportunidade de reconstruir a formação que trazia do Brasil.
Três décadas depois, é razoável perguntar qual opção o governo de François Holland irá tomar franceses diante de um atentado que merece repúdio universal – mas não pode ressuscitar assombrações de seu próprio passado.
A mídia brasileira está usando o sangue do Charlie em causa própria
Paulo Nogueira, no DCM*
Um jornalista britânico pergunta, no Independent, se haveria a mesma comoção se o atentado contra o Charlie Hebdo tivesse como alvo uma publicação de extrema direita. Respondo com uma pergunta. Alguém consegue imaginar uma marcha, no Brasil, que congregue pessoas emocionalmente arrasadas que segurem cartazes que digam: “Sou a Veja?” Ou mesmo: “Sou a Globo?” Ou ainda: “Sou a Folha?”

Enquanto isso, no Brasil …
Ou indo para pessoas físicas. Feche os olhos e veja multidões com cartazes assim: “Eu sou Jabor”. Ou: “Eu sou Merval”. Ou: “Eu sou Reinaldo Azevedo”. Ou: “Eu sou Sheherazade”.
A direita tem poder e dinheiro, mas não comove ninguém. Não muito tempo atrás, festas nas ruas celebraram na Inglaterra a morte de Margaret Thatcher.
Testemunhei uma delas, em Trafalgar Square, berço da majestosa coluna de Nelson, o almirante que impôs a primeira grande derrota à França de Napoleão.
As grandes empresas de jornalismo do Brasil e seus porta-vozes – os reais chapas brancas da mídia — são o exato oposto do Charlie. Defendem um mundo de privilégios que provocava vômitos mentais nos cartunistas mortos.
Isso não tem impedido a mídia brasileira de usar a tragédia do Charlie, cinicamente, em causa própria.
O sangue dos cartunistas franceses vem sendo utilizado sobretudo para barrar a discussão em torno da regulação da mídia no Brasil.
A liberdade de expressão pela qual morreram os jornalistas do Charlie seria, aspas, e pausa para uma gargalhada, ameaçada pela regulação.
Já que falamos de Nelson, evoquemos também Wellington, o herói inglês de Waterloo: quem acredita nisso acredita em tudo.
A “liberdade de expressão” pela qual se batem as empresas jornalísticas brasileiras pode ser resumida assim: vale tudo para defender os próprios privilégios.
Você pode assassinar reputações sem prova e sem consequências jurídicas. Você pode usar concessões públicas como rádios e tevês como arma de propaganda contra ideias e pessoas que representam ameaças, reais ou imaginárias, às mamatas. Você pode concentrar o direito à opinião em quatro ou cinco famílias. Você pode formar monopólio impunemente.
Você pode tudo, em suma – e sem contrapartida. Numa disputa com dois barões da mídia na década de 1930, o então premiê britânico Stanley Baldwin produziu uma frase ainda hoje amplamente citada no Reino Unido.
Depois de dizer que os jornais de ambos eram na realidade “máquinas de propaganda” para servir a interesses pessoais, e não públicos, Baldwin afirmou: “O que os donos desses jornais querem é poder, mas poder sem responsabilidade, coisa que no correr dos tempos tem sido o atributo das marafonas.”
De Baldwin para cá, a opinião pública inglesa esteve constantemente vigilante em relação aos barões da mídia.
O último deles, Rupert Murdoch, virou um pária social depois que os ingleses souberam os métodos que um jornal seu empregava para obter furos.
Sob a fúria da opinião pública, Murdoch foi obrigado a fechar o jornal, e jamais voltou a ter um vestígio do poder e da influência que tivera na Inglaterra.
Ainda em consequência do escândalo, a Inglaterra se pôs a discutir, prontamente, uma nova regulação da mídia. Os detalhes finais estão sendo elaborados, mas essencialmente foi decretado o fim da auto-regulação por ter se provado pateticamente ineficaz.
No Brasil, não chegamos ainda, neste terreno, aos anos 1930 de Baldwin.
Que presidente brasileiro ousou dizer a barões – e à sociedade, principalmente — as verdades que Baldwin disse?
Diversos ocupantes do Planalto não apenas silenciam como patrocinam os barões com o Bolsa Imprensa, o dinheiro público farto e constante que sempre abastece as grandes empresas na forma de publicidade federal.
É esse estado de coisas que a mídia está defendendo mais uma vez, com o caso do Charlie – e não, não e ainda não a “liberdade de expressão”.
*Jornalista, fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo (DCM).
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Do Estado, do Direito e da Política: reflexões
Os conceitos de Estado, de Direito e de Política se encontram tão profundamente interligados que não se pode com proveito analisá-los de forma separada. Abaixo, uma aula didática do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães.
Introdução
Os conceitos de Estado, de Direito e de Política muitas vezes, em teoria, são apresentados e discutidos de forma distinta. Em realidade, se encontram tão profundamente interligados que não se pode com proveito analisá-los de forma separada.
Não há Direito sem Estado, pois a aceitação e a observância das normas jurídicas e sua eventual sanção em caso de descumprimento dependem da existência e da força do Estado que se expressam através de suas agências, entre elas e muito em especial sua polícia. A afirmação de que não há Direito sem Estado não significa negar a existência de direitos humanos inalienáveis. Todavia, somente a luta política pela consagração desses direitos e pelo seu reconhecimento pela legislação e pelo Estado é que permite impor sua observância.
Não há Direito sem Política, pois as normas jurídicas não são elaboradas, executadas e interpretadas em gabinetes acadêmicos a partir de conceitos e de estruturas lógicas cartesianas, mas, sim, em processos conflituosos de disputa de interesses no seio da sociedade e dos organismos do Estado, ainda que cada grupo de interesses conte nestes processos com o auxílio precioso de seus juristas para melhor articular a defesa de seus pontos de vista.
Não há Estado sem Política, pois os dirigentes das distintas agências do Estado, isto é das múltiplas agencias que compõem os seus três Poderes - Legislativo, Executivo e Judiciário - são escolhidos através de processos políticos, mesmo quando esses processos são disfarçados como procedimentos de aparência tecnocrática, de reduzida transparência e nenhuma participação popular, como ocorre em regimes ditatoriais.
Há uma tendência em certas áreas de estudos acadêmicos e de certos autores a se estabelecer uma distinção e uma separação entre Sociedade Civil e Estado, entre Economia e Estado. A Sociedade Civil é apresentada com uma aura e uma natureza inerentemente boa, um lugar ideal onde os cidadãos, iguais e livres, conviveriam em harmonia se não fora pela existência do Estado, ente maléfico e autoritário que perturba e impede o desabrochar da sociedade civil. A Economia é representada como um espaço livre, dinâmico e criativo, onde empresários, capitalistas e investidores são responsáveis pelo progresso e pela prosperidade de todos enquanto que o Estado aparece como uma entidade intervencionista, ineficiente, corrupta e corruptora.
Todavia, não existe Sociedade Civil sem Estado, mesmo quando este aparece como instrumento de um regime ditatorial ou autoritário, pois sem o Estado e sem normas jurídicas, a sociedade seria tão somente um emaranhado confuso de lutas violentas de interesses. A não ser nos territórios coloniais, onde as instituições do Estado colonial aparecem como criaturas da potência estrangeira, alheia e opressora da sociedade local, se pode falar de separação entre Sociedade Civil e Estado.
Por outro lado, não há Economia sem Estado, pois são as normas jurídicas que regulam as atividades econômicas e que, através das agências do Estado, garantem a observação das relações entre trabalho e capital (lato sensu), qualquer que seja o sistema econômico de uma determinada sociedade: agrária primitiva, antiga, feudal, capitalista, socialista ou comunista.
Hoje há uma tendência a considerar que a expressão mais moderna da Sociedade Civil seriam as organizações não governamentais, que representariam melhor os interesses do povo, principalmente em Estados em que as classes hegemônicas são conservadoras e opressoras. Todavia, em muitas circunstâncias, as organizações não governamentais que atuam em um país, em especial quando é ele subdesenvolvido, representam em realidade interesses particulares e estrangeiros e estão longe de representar a sociedade civil. De toda forma, não têm essas organizações representatividade e legitimidade já que seus integrantes se auto-escolheram, e assim é de estranhar e de preocupar a tendência atual de incorporar representantes de ONGs em organismos do Estado.
Ao tratar dos temas do Estado, do Direito, da Política, da Sociedade e da Economia há sempre uma certa repetição de ideias e de argumentos, devido à sua estreita interelação, pelo que me penitencio.
Os conceitos de Estado, de Direito e de Política muitas vezes, em teoria, são apresentados e discutidos de forma distinta. Em realidade, se encontram tão profundamente interligados que não se pode com proveito analisá-los de forma separada.
Não há Direito sem Estado, pois a aceitação e a observância das normas jurídicas e sua eventual sanção em caso de descumprimento dependem da existência e da força do Estado que se expressam através de suas agências, entre elas e muito em especial sua polícia. A afirmação de que não há Direito sem Estado não significa negar a existência de direitos humanos inalienáveis. Todavia, somente a luta política pela consagração desses direitos e pelo seu reconhecimento pela legislação e pelo Estado é que permite impor sua observância.
Não há Direito sem Política, pois as normas jurídicas não são elaboradas, executadas e interpretadas em gabinetes acadêmicos a partir de conceitos e de estruturas lógicas cartesianas, mas, sim, em processos conflituosos de disputa de interesses no seio da sociedade e dos organismos do Estado, ainda que cada grupo de interesses conte nestes processos com o auxílio precioso de seus juristas para melhor articular a defesa de seus pontos de vista.
Não há Estado sem Política, pois os dirigentes das distintas agências do Estado, isto é das múltiplas agencias que compõem os seus três Poderes - Legislativo, Executivo e Judiciário - são escolhidos através de processos políticos, mesmo quando esses processos são disfarçados como procedimentos de aparência tecnocrática, de reduzida transparência e nenhuma participação popular, como ocorre em regimes ditatoriais.
Há uma tendência em certas áreas de estudos acadêmicos e de certos autores a se estabelecer uma distinção e uma separação entre Sociedade Civil e Estado, entre Economia e Estado. A Sociedade Civil é apresentada com uma aura e uma natureza inerentemente boa, um lugar ideal onde os cidadãos, iguais e livres, conviveriam em harmonia se não fora pela existência do Estado, ente maléfico e autoritário que perturba e impede o desabrochar da sociedade civil. A Economia é representada como um espaço livre, dinâmico e criativo, onde empresários, capitalistas e investidores são responsáveis pelo progresso e pela prosperidade de todos enquanto que o Estado aparece como uma entidade intervencionista, ineficiente, corrupta e corruptora.
Todavia, não existe Sociedade Civil sem Estado, mesmo quando este aparece como instrumento de um regime ditatorial ou autoritário, pois sem o Estado e sem normas jurídicas, a sociedade seria tão somente um emaranhado confuso de lutas violentas de interesses. A não ser nos territórios coloniais, onde as instituições do Estado colonial aparecem como criaturas da potência estrangeira, alheia e opressora da sociedade local, se pode falar de separação entre Sociedade Civil e Estado.
Por outro lado, não há Economia sem Estado, pois são as normas jurídicas que regulam as atividades econômicas e que, através das agências do Estado, garantem a observação das relações entre trabalho e capital (lato sensu), qualquer que seja o sistema econômico de uma determinada sociedade: agrária primitiva, antiga, feudal, capitalista, socialista ou comunista.
Hoje há uma tendência a considerar que a expressão mais moderna da Sociedade Civil seriam as organizações não governamentais, que representariam melhor os interesses do povo, principalmente em Estados em que as classes hegemônicas são conservadoras e opressoras. Todavia, em muitas circunstâncias, as organizações não governamentais que atuam em um país, em especial quando é ele subdesenvolvido, representam em realidade interesses particulares e estrangeiros e estão longe de representar a sociedade civil. De toda forma, não têm essas organizações representatividade e legitimidade já que seus integrantes se auto-escolheram, e assim é de estranhar e de preocupar a tendência atual de incorporar representantes de ONGs em organismos do Estado.
Ao tratar dos temas do Estado, do Direito, da Política, da Sociedade e da Economia há sempre uma certa repetição de ideias e de argumentos, devido à sua estreita interelação, pelo que me penitencio.
sábado, 20 de dezembro de 2014
"Pessoas estão mais ricas, nas vida hoje é mais pobre", diz filósofo
Ao reiniciar meu blogue, que andou parado, faço-o postando uma entrevista do filósofo canadense Barry Stroud, veiculada há dias pela Folha de S. Paulo. Ao criticar o modo de vida nos EUA, Stroud critica a sociedade capitalista contemporânea. Já veiculei essa entrevista na minha página no facebook, mas julgo pertinente reproduzi-la aqui, dada sua importância para se compreender os dias que correm.
A vida virou uma carreira. As pessoas
estão focadas o tempo todo no seu sucesso profissional. É preciso ganhar o
máximo de dinheiro, ter uma família, casa grande -tudo junto. Consumismo,
individualismo, carreirismo. A vida contemporânea, apesar dos avanços
materiais, é mais pobre.
O diagnóstico é do filósofo canadense
Barry Stroud, 79, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA).
Autor de obras sobre David Hume (1711-1776) e Ludwig Wittgenstein (1889-1951),
sua especialidade é o ceticismo como filosofia -basicamente o oposto do que
ocorre hoje com o pensamento dominante nos EUA e mundo afora.
Leitor de romances policiais e adepto
de caminhadas, Stroud observa com pessimismo a rotina moderna de hiperconexão,
que leva à dispersão e à falta de tempo para a reflexão. Aponta para a
superficialidade dos jovens superricos, que só sabem comprar carros e barcos. E
ataca o crescente poder das finanças.
Nesta entrevista, concedida em Campos
do Jordão, onde participou do 16º congresso da Associação Nacional de
Pós-Graduação de Filosofia, ele critica a universidade e os filósofos. Ela
virou uma corporação. Eles estão se especializando em demasia, tendem a lidar
com um universo estreito. "É como uma visão dentro de um túnel",
afirma.
Folha - Qual sua visão do momento
atual?
Como esse quadro se reflete na maneira
como as pessoas pensam no mundo?
Após a Segunda Guerra Mundial o
pensamento dominante era diferente. É correto dizer que havia mais
solidariedade?
Por quê? O que mudou?
Qual a influência da situação econômica
mundial no ceticismo, que é o seu objeto de estudo?
Como se encaixa nesse pensamento
dominante a ideia do empreendedorismo?
Existe também a ideia de que o
indivíduo é o único responsável pelos seus fracassos, sem considerar a situação
social, econômica e política, certo?
Houve alguma mudança nessa mentalidade
após a crise?
Como o sr. analisa o movimento
filosófico pelo mundo?
A filosofia, que é um vasto campo com uma longa história, também está ficando muito profissionalizada. Envolve temas como conhecimento, natureza das coisas, modos de viver, organização da sociedade, política. A filosofia que está sendo feita em universidades quem mais pagaria para ver filósofos filosofarem? seguiu os princípios de organização das ciências. E as ciências tomaram o caminho da especialização. Pessoas trabalham nessa pequena parte da física ou nessa pequena parte do cérebro. Avanços são obtidos assim. Não acho que isso funcione tão bem na filosofia. Professores organizam suas carreiras para produzir o máximo que puderem para demonstrar que são muito ativas. É como a filosofia e outras humanidades estão funcionando. As pessoas escolhem uma pequena área para trabalhar. Um fica especializado em Jane Austen e escreve livros sobre ela. A profissionalização é boa, mas leva a estreitar os assuntos. Pior: as pessoas ficam nesses universos estreitos e não precisam saber de mais nada para fazer o que fazem. É como uma visão dentro de um túnel.
O problema está nas universidades?
Mas os alunos não estão aprendendo?
Filósofos ganham dinheiro nos EUA?
O fato de as pessoas hoje estarem
sempre conectadas muda a forma de pensar?
Em geral, há menos tempo para a
reflexão?
Sim. As pessoas gastam tempo nenhum em reflexão. Raramente se vê pessoas sozinhas andando sem estar com fones de ouvido, telefones. Vejo isso da janela do meu escritório no campus. Conto quantos estão sozinhos sem falar ao telefone. O número é muito pequeno.
O sr. está otimista ou pessimista?
Sou pessimista. As pessoas vivem melhor do que há 50 anos. Os negros, apesar de ainda estarem pior do que os brancos, vivem melhor. Mas, na vida contemporânea nos EUA, a maioria das pessoas têm vidas menos ricas do que as que viviam confortavelmente há 50 anos. Suas vidas são menos ricas -não economicamente. As pessoas pensam em preencher suas vidas com coisas, não têm interesses variados, veem TV -que é terrível. Ler livros, ver pinturas, escutar música olhar a paisagem, caminhar pela natureza -tudo isso trazia uma vida mais rica do que ficar em frente à TV, falar ao celular, entrar em redes sociais. A amizade mudou. Hoje é clicar no computador. Amizade não é mais uma coisa rica, de falar, olhar e fazer coisas junto.
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Seu livro "Engagement and
Metaphysical Dissatisfaction" está em fase de tradução no Brasil (ainda
sem prazo para a edição) e há planos de versão para o seu clássico "The
Significance of Philosophical Scepticism".
Barry Stroud - Sociedades divididas do ponto de vista econômico estão se
dirigindo para extremos. Os ricos estão ficando mais ricos, enquanto os pobres
mais pobres. É o que está acontecendo nos EUA e na Europa. O que mudou nos
últimos 20 anos é o tremendo poder das finanças, que funcionam um pouco como
uma jogatina. O grande produtor de riqueza nesses países não é o real produtor
de bens. Há poucas razões para achar que isso não vai continuar, pois falta
regulamentação nesses mercados.
Encoraja as pessoas que não têm muito a tentar viver o tipo de vida que eles
acham que aqueles que ganham muito dinheiro têm. É focar em ganhar vantagem.
Consumismo e individualismo. A pressão para o avanço profissional e o sucesso é
muito profunda, principalmente na cultura norte-americana. Sou professor em uma
das melhores universidades do mundo. Ensino filosofia, área que não significa
ficar rico. Mesmo meus melhores alunos são forçados a pensar neles como iniciantes
de uma carreira profissional, são focados no carreirismo em detrimento do
verdadeiro assunto de seu estudo. Mesmo entre professores isso ocorre e é
terrível. Há uma grande profissionalização na sociedade. Não quero dizer que as
pessoas não estejam fazendo trabalhos sérios em suas áreas, na ciência, por
exemplo. Mas o que as pessoas que estão fazendo isso pensam de suas vidas? Elas
pensam nas suas carreiras profissionais.
Sim. Muitas pessoas que não eram de classe média prosperaram. Foram consumistas
de certa forma, mas havia a ideia de fazer tudo aquilo em conjunto; houve
movimentos e avanços sociais. Havia pessoas ricas, mas não tantas comparado ao
que existe hoje. Existia mais igualdade, melhor distribuição de riqueza. Mas,
nos anos 1960, começou a destruição gradual dos sindicatos afetando os
movimentos de classe média que tinham sido inspiradores. Quando comecei a
lecionar em Berkeley, grupos iam para o Sul dos EUA para apoiar os negros,
ocorriam protestos contra a guerra do Vietnã, havia uma oposição generalizada
mobilizando a classe média. Não sei se alguma coisa parecida poderia acontecer
agora.
Mais pessoas estão mais preocupadas em olhar para si mesmas. Não estão
inclinadas a se engajar em movimento sociais. O Occupy Wall Street foi uma
tentativa, mas não havia um alvo reconhecível. Pedir para o mercado financeiro
parar o que eles estão fazendo? Eles não param porque há manifestação. É muito
difícil achar um tema que possa se transformar em um movimento social forte nos
EUA. Eu estava em Berkeley quando do movimento pela liberdade de expressão. Em
1968, durante a guerra do Vietnã, houve protestos enormes, a polícia jogou gás
lacrimogêneo, foi uma guerra. Isso é nostalgia. É difícil imaginar isso nos
dias de hoje. Estudantes protestam contra isso ou aquilo, mas geralmente são
temas locais.
Ceticismo é uma palavra que aparece na vida cotidiana. Não se toma nada como
garantido. Na filosofia, tem um significado mais especifico, que não está
desconectado do sentido popular do termo.
A ideia, originária dos gregos, era
olhar com cuidado para as coisas. Na Grécia, havia os que pensavam que existia
uma única maneira de viver -dentro de uma forma muito racional e organizada.
Era preciso achar esses princípios e segui-los para ter uma vida de sucesso. Os
céticos defendiam a ideia de que não há de fato esses princípios, que são, na
maior parte, defensivos. Diziam que alcançavam uma vida diferente daquela forma
racional e ordeira. Que isso lhes dava uma certa paz e satisfação que não era
atingível em outra concepção de vida -que sempre estabelece que é preciso viver
assim ou assado.
Hoje há revistas populares de ceticismo
que geralmente são antirreligiosas. Não é disso que se trata o ceticismo no
terreno da filosofia. O ceticismo como forma de vida não toma as coisas como
garantidas, não há procura de princípios para formas de vida. Falando assim,
parece um discurso dos anos 1960. Você vai com o fluxo das coisas. Em certo
sentido, o profissionalismo na atual vida norte-americana é o oposto do ceticismo.
Hoje o que vigora é o princípio de que o que se deve tentar fazer na vida é
ganhar o máximo de dinheiro. Ficar rico, ter uma família, uma casa grande, tudo
junto. É a ideia de que a vida é uma carreira, esse é o objetivo. O Brasil é
provavelmente o maior lugar para viver a vida que eu conheço. Aqui mais
filósofos e historiadores estão interessados em conhecer o ceticismo.
É o objetivo definitivo do norte-americano: ser um empreendedor. Isso envolve
risco e ousadia e é inatingível para a maioria das pessoas. Bill Gates teve
ideias brilhantes quando era estudante em Harvard. Não se importou em concluir
a faculdade; saiu para colocar suas ideias em prática. Aí surge o pensamento de
que não é preciso ter educação. Mas quantas pessoas são como ele? O
empreendedorismo é parte disso tudo. Agora está no setor financeiro. Você tem
que ser um executivo rico de um fundo como prova o sucesso. É o
empreendedorismo financeiro no lugar do empreendedorismo de negócios
produtivos.
Exato. Essa é a mentalidade norte-americana. É o que falam para as pessoas
pobres, com baixa escolaridade, muitas vezes negros e hispânicos. Que é
responsabilidade delas. Vejam o que eu fiz!
Difícil dizer. As pessoas com muito dinheiro não podem dizer que sofreram muito
com a recessão de 2008 porque os seus bancos foram resgatados com o dinheiro
público. Muitas pessoas perderam seu dinheiro, suas casas e ficaram
desempregadas. Estão desesperadas. Como seria possível colocar essas pessoas
juntas? Qual seria o foco? De outro lado, há pessoas prosperando nos EUA. É o
que se vê nos filmes, que apresentam o modelo para se viver. Olhe para essa
casa!
A filosofia, que é um vasto campo com uma longa história, também está ficando muito profissionalizada. Envolve temas como conhecimento, natureza das coisas, modos de viver, organização da sociedade, política. A filosofia que está sendo feita em universidades quem mais pagaria para ver filósofos filosofarem? seguiu os princípios de organização das ciências. E as ciências tomaram o caminho da especialização. Pessoas trabalham nessa pequena parte da física ou nessa pequena parte do cérebro. Avanços são obtidos assim. Não acho que isso funcione tão bem na filosofia. Professores organizam suas carreiras para produzir o máximo que puderem para demonstrar que são muito ativas. É como a filosofia e outras humanidades estão funcionando. As pessoas escolhem uma pequena área para trabalhar. Um fica especializado em Jane Austen e escreve livros sobre ela. A profissionalização é boa, mas leva a estreitar os assuntos. Pior: as pessoas ficam nesses universos estreitos e não precisam saber de mais nada para fazer o que fazem. É como uma visão dentro de um túnel.
Estou na mesma universidade há mais de 50 anos. Foi o único emprego que eu
tive. Vi que ela mudou tremendamente. Virou uma corporação. A GM é uma
corporação e faz carros. O que a universidade faz? Na universidade, estudantes
entram e saem, mas o foco é na corporação, não naquele produto. Mas temos que
ter estudantes com sucesso. O que são eles? São aqueles que passam pela
universidade e pegam bons empregos, pois obtêm conhecimento técnico. A
universidade tem cada vez mais a função de ser um lugar por onde os alunos
passam quatro anos para entrar no mercado de trabalho.
Sim. Porque muitos sabem o que eles querem saber quando terminarem o curso.
Estão aprendendo habilidades. Isso se enquadra no carreirismo. Não é que tenha
havido um tempo em que não havia o carreirismo. Mas hoje parece que ele é a
única coisa.
Na universidade o salário é bom. Não há praticamente outros lugares para
trabalhar como filosofo. A lógica, um segmento da filosofia, fez parte da
revolução dos computadores. Alguns de meus alunos de lógica, nos anos 1960,
foram por esse caminho, não como filósofos, e fizeram muito dinheiro. Foram
parcialmente fundadores da revolução dos computadores. Nesse sentido, aquele
foi um bom tempo para ser filosofo.
Drasticamente. A atenção das pessoas é menor hoje, elas leem menos. Quase
nenhum dos meus colegas lê livros em papel. Suponho que muitos dos meus alunos
nunca tenham segurando um livro. As pessoas leem na tela. Outro dia um colega
me disse que ninguém lê livros se pode dar um Google. É perturbador. Além
disso, o foco é na cultura visual. Na filosofia, as pessoas dão palestras com Power
Point. Não uso isso.
Sim. As pessoas gastam tempo nenhum em reflexão. Raramente se vê pessoas sozinhas andando sem estar com fones de ouvido, telefones. Vejo isso da janela do meu escritório no campus. Conto quantos estão sozinhos sem falar ao telefone. O número é muito pequeno.
O sr. está otimista ou pessimista?
Sou pessimista. As pessoas vivem melhor do que há 50 anos. Os negros, apesar de ainda estarem pior do que os brancos, vivem melhor. Mas, na vida contemporânea nos EUA, a maioria das pessoas têm vidas menos ricas do que as que viviam confortavelmente há 50 anos. Suas vidas são menos ricas -não economicamente. As pessoas pensam em preencher suas vidas com coisas, não têm interesses variados, veem TV -que é terrível. Ler livros, ver pinturas, escutar música olhar a paisagem, caminhar pela natureza -tudo isso trazia uma vida mais rica do que ficar em frente à TV, falar ao celular, entrar em redes sociais. A amizade mudou. Hoje é clicar no computador. Amizade não é mais uma coisa rica, de falar, olhar e fazer coisas junto.
Minha filha trabalhou numa empresa de
desenvolvimento de programas de computador. Muitos de seus colegas têm em torno
de 20 anos e ganham muito dinheiro. Perguntei a ela o que eles fazem com tanto
dinheiro. Ela me disse: apenas compraram o que seriam brinquedos. Mas
brinquedos grandes: vários carros, barco, sem falar nas traquitanas
tecnológicas. Trabalham muito; não têm tempo para viajar. São apenas crianças
grandes com a chance de fazer o que quiserem. E o que eles fazem é comprar
objetos. É uma vida superficial.
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